Dos espaços públicos aos ambientes internos, é possível observar uma forte intenção em reforçar a sensação de aconchego. Atmosferas que remetem ao ninho e são propícias à convivência com as pessoas queridas deixam claro que as relações com família e amigos são cada vez mais prioritárias.
De acordo com a trendsetter Lidewji Edelkoort – que oferece um rico conteúdo sobre os direcionamentos da sociedade e suas conexões com a moda, a arquitetura e o design no site Trend Tablet -, o retorno dos têxteis é reflexo dessa vontade de conforto. A holandesa diz que há uma reação ao incremento dos espaços digitais em nossas vidas, e um forte anseio pelo que é tátil. Isso faz com que muitos designers comecem a reconsiderar o papel dos tecido para as casas, em tapetes e móveis confortáveis plenamente associados aos tecidos e às narrativas que eles contam.
Entre tantas possibilidades tecnológicas, são os materiais mais rústicos e simples que dão forma a essa proposta de aproximação: lãs, feltros e veludos prometem aparecer com muita força em diversos segmentos, e carregam características que completam o senso de enraizamento.
São Paulo vem sediando diversas intervenções artísticas que carregam esse conceito. Na obra Penélope: tapete, tear, fios de lã e chenille, de Tatiana Blass, um tapete de 14 metros foi instalado na porta de entrada da Capela do Morumbi. Os imensos fios provinham de um grande tear manual de pedal e atingiam a área externa do local – criando assim um movimento de construção e desconstrução que é típico do trabalho manual que pode ser desfeito com facilidade.
É também na capital paulista que o Coletivo Tresponto interage com o espaço público a partir do tricô. Em obras que para alguns representam uma espécie de grafite de lã, as amigas Cristiane Bertoluci, Ana Tokutake, Maria Eugênia Mazzoneto e Tainá Denardi levam em conta a produção artesanal e colaborativa para planejar ocupações que reavivam detalhes esquecidos da cidade. Exemplo disso foi a instalação feita no Parque do Ibirapuera para o evento TEDxDaLuz, sobre o qual Ana falou em entrevista ao blog Urban Gallery: “Queremos despertar a atenção das pessoas e da relação delas com a cidade em que vivem. O tricô tem esse aspecto afetivo, todo mundo se lembra da avó, da mãe, da tia, o que traz de volta um pouquinho de acolhimento no corre-corre de São Paulo. Acho que o tricô tem algo de especial também, que traz as pessoas pra perto, elas querem passar a mão, tocar. Explorar outro tipo de sensação das pessoas que se interessaram por aquilo é muito legal”.
Talvez as altas temperaturas do verão ainda causem estranhamento quando se fala nesses materiais tão associados ao frio. Mas esses sentimentos bons de se estar perto também aparecem em peças frescas, apropriadas ao calor típico da época.
O trabalho da estilista Helga Kern, da Hola Que Tal, é uma boa síntese do que se falou até aqui. Marca gaúcha que que defende a moda livre, o tricô e as ideias, conta até com o carinho da mãe de Helga na produção das peças: é ela que coordena a produção artesanal dos modelos que utilizam fios, rendas e fitas. A marca parece tranbordar entre pontos de tricô a frase do xilogravurista pernambucano J. Borges: “do sentimento vem a inspiração, passa pelo cérebro, se realiza com a mão, e depois da obra feita, alegra o coração”. As peças abaixo mostram o tricô em versões de verão, em vestidos românticos à venda no Estilo Exclusivo:
Outra gaúcha que faz do tricô e do crochê suas ferramentas de trabalho é Helen Rödel. É ela quem fala das técnicas manuais com a consciência de que mexe em técnicas que transitam entre o passado e o futuro: “Penso que as técnicas manuais são o passado, e agora são o futuro. São artes tradicionais e de infinitas possibilidades para qual eu oferto a minha visão. Essa fantástica combinação de uma agulha, fios, mãos e mente presente me encanta sobremaneira e meu esforço em renovar a técnica é, além de realização pessoal e crença, uma vontade sincera de que a técnica se mantenha viva carregando consigo a mudança dos tempos“.
E para inspirar: quem não gosta de rever o vídeo feito por ela?
Helen Rödel – Documentário Estudos MMXI (english subtitles) from Helen Rödel on Vimeo.






