O ato de bordar presume a introspecção. Mesmo quando se ganha desprendimento após algum tempo de prática, é necessário manter atenção às agulhas, ao tecido e aos pontos repetidos que aos poucos definem formatos. Talvez seja neste momento de concentração manual absoluta que o pensamento ganha liberdade para agir: usando a cor das linhas, o bordado pode sim abrir espaço para a arte e a materialização de ideias. Longe de representar apenas a delicadeza ou o cuidado, o resultado é muitas vezes vigoroso, marcando posturas e contando histórias nem sempre doces. A forma simples que remete à infância é inerente à técnica, mas o resultado das obras pode transbordar sentimentos de absoluta intensidade.
Por coincidência, Porto Alegre recebe simultaneamente 4 mostras de artistas que utilizam o bordado como forma de manifestação. Bolamos um pequeno roteiro para quem quiser conferir estes trabalhos de perto – a entrada é franca nas 4 exposições:
Arpilleras da Resistência Política Chilena (até dia 17 de abril, no Memorial do Rio Grande do Sul):
As telas de aniagem começaram a ser produzidas por um grupo de bordadeiras de Isla Negra, no Chile: bordavam denúncias contra os direitos humanos e faziam disso um pedido de ajuda a outras nações. Pertencentes em sua maioria a acervos norte-americanos e europeus, as obras retratam situações e angústias vivenciadas pelas mulheres ao longo da ditadura chilena, notória por ser uma das mais duras e cruéis da América Latina. Agora utilizadas como testemunho de resistência dessas mulheres que perderam entes queridos, as telas viajam o mundo. No sábado, acontece uma mesa redonda que debaterá “Arte, Feminismo e Sexismo: as cores do conflito”, às 15h no Memorial do Rio Grande do Sul (Sete de Setembro, 1.200, Praça da Alfândega).
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A Poesia do Fio, de Arthur Bispo do Rosário (até dia 29 de abril, no Santander Cultural):
Considerado um dos artistas mais intrigantes do final do século passado, Arthur Bispo do Rosário fez de um manicômio no Rio de Janeiro o ateliê para desempenhar sua arte. Com o material que obtinha ao desfiar lençóis e uniformes, costurava e bordava roupas e objetos que, de certa forma, canalizavam a dor e angústia daquele local destinado ao tratamento psiquiátrico. As 239 obras expostas no Santander Cultural (Rua Sete de Setembro, 1028, Praça da Alfândega) têm como fio condutor a criação de um mundo particular para o artista: “bordar, juntar, desfiar, escrever, desenhar, dizer através do visível. Tudo isso era uma única sutura do ser. Por isso, sua obra, por mais visual que seja, é mais do tempo do que do espaço, como a poesia e a música” – diz o texto de apresentação da exposição.
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Sob o peso dos meus amores, de Leonilson (até 3 de junho, na Fundação Iberê Camargo):
Nome fundamental da arte contemporânea brasileira, José Leonilson foi um dos expoentes da década de 80. O universo pessoal do artista é trazido à tona na exposição “Sob o Peso dos Meus Amores”, que se acomoda em dois andares da Fundação Iberê Camargo (Av. Padre Cacique, 2000). Os mais de 360 trabalhos selecionados incluem trabalhos com bordado, costura e desenhos – além de agendas e cadernos que revelam o cotidiano, as lembranças e a forma como se dava a criação. Trata-se de uma autoetnografia, mas especialmente de um recorte da obra de Leonilson feita pela ótica da sensibilidade e da aproximação quase íntima com uma vida repleta de desejos e melancolia.
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Rever, de Rochele Zandavalli (até 29 de abril, no Santander Cultural):
Poucas representações tocam mais a memória afetiva do que fotografias antigas. E elas ganham, a partir do trabalho de Rochele Zandavalli, uma ressignificação: são fotografias de famílias anônimas, de amores antigos e de amizades cujas histórias desconhecemos. Os pequenos e coloridos bordados da artista salientam as possíveis histórias e movem o pensamento a investigar relações que são comuns a todas as pessoas. No Santander Cultural (Rua Sete de Setembro, 1028, Praça da Alfândega).





