Ano Passado em Mariambad, filme de 1961, é dirigido por Alain Resnais, um dos mais importantes nomes da Nouvelle Vague, movimento do cinema francês. A narrativa da obra gira em torno dos três personagens principais: um homem, uma mulher e o estranho. A película, que não tem compromisso com a linearidade, é uma das preferidas de Carine Wallauer. A fotógrafa gosta de deixar seu trabalho em aberto, submerso em um paraíso “onírico e surreal permeado por muitos mundos” que ela é curiosa por desvendar.
Antes do primeiro contato com o filme, que conta um pouco dela e do processo criativo, Carine já surpreendia a família com as fotos tiradas do celular. Dois anos depois, quando atingiu a maioridade, a fotografia também alcançou um amadurecimento registrado pela câmera compacta que ganhou do pai. O problema surgiu ao ingressar na universidade, momento em que sua estética não se adaptou aos limites acadêmicos: a resistência dos professores da faculdade de jornalismo quase a fez largar o ofício.
Por feliz coincidência, em um curso de fotografia instrumental ela conheceu Tiago Coelho, que além de ministrar as aulas se ocupava em solidificar o talento de Carine. A criação fotográfica emergiu novamente. Ainda que um tanto tímida, ela resgatou o que sempre foi visto de forma pura e completa pelo namorado Gabriel Honzik, personagem do primeiro projeto de fotos que ela admite “querer manter para a vida inteira”. “Parece que todos os nossos momentos são mágicos no mundo em que a gente criou”. A afirmativa se confirma quando Carine revela que 80% das fotos do portfólio foram feitas no sítio de Gabriel, lugar que parece se “moldar ao desejo e ao sentimento do clique”.
“Não fotografo objetos e sim fragmentos de mim”, admite. Mais do que algo que já viveu, o resultado é uma transposição de algo que está na memória, do modo subjetivo como ela interpretou um acontecimento. Exemplificando os motivos que fotografa na busca por complementar o momento, Carine lembra a história de um ente querido que não posa mais para suas lentes: “Eu sempre fotografava um tio meu. Ele pedia pra ver as fotos e eu nunca mostrava. Esse tio era muito pobre e tinha uma deficiência nas pernas, mas eu sempre buscava fotografá-lo sorrindo, ereto, grande e seguro. Ele faleceu e eu não tive a oportunidade de mostrar que eu o via bonito, talvez do jeito que ele gostaria de ser”. Apesar de entristecer a fotógrafa, o fato alavancou ainda mais a motivação por ampliar o sentimento em pessoas próximas para assim ter registros eternos: “Uso muito o sentimento no meu trabalho. Sinto que o filme se revela dentro mim, como se a minha camada subjetiva preenchesse as cores e fizesse os efeitos”.
Um dos desafios de Carine é fotografar uma campanha de moda através dessa estética íntima. Pela forma como lida com a fotografia, ela teme “perder a naturalidade e a história que é uma só”. Porém, fazendo referência ao paulista Gui Mohallen – que consegue transpor suas características para um trabalho encomendado -, a fotógrafa percebe que quando as fotos são verdadeiras o autor não precisa se desfazer de suas características para ingressar no mercado. “Acredito que as coisas devem convergir para o mesmo caminho”.
Adepta das câmeras analógicas e manuais, Carine diz que não se rendeu à pós-produção nas fotos: “não gosto de voltar atrás para não trair minha memória”. O resultado desse caminho são fotografias com muitas camadas, névoas e algum tipo de interferência óptica. “Gosto de pensar na minha fotografia como forma de conjugar um outro tempo: não o passado, nem o futuro, muito menos o presente. É um tempo subjetivo que construo com as pessoas que estão envolvidas comigo naquele momento”.
// Texto de Thamys Trindade para a edição #43 da RM Mag.




















