Isadora Bertolucci sempre teve a Itália no imaginário. Publicitária, logo percebeu que a moda tem um poder de persuasão maior do que o das ferramentas tradicionais de comunicação: “Sentia necessidade de entender melhor este discurso que, assim com a publicidade, pode ser usado para o amor ou para a guerra”. Interessada em movimentos culturais e moda urbana, escolheu o curso Fashion Trends Forecast (ou Pesquisa de Tendências de Moda) na Polimoda, em Florença – terra de origens familiares e sensação de dolce vita. Ao entrar no avião em 2011, levava a intenção de fortalecer decisões profissionais. A volta para casa, ocorrida após um ano de viagem, revelou que a mudança foi muito além do que ela poderia prever.
“Minha viagem começou de verdade quando entrei na Basílica de Roma e vi um mapa astronômico e astrológico cravejado no chão. Os signos e as constelações estavam ali, desenhados no templo do catolicismo. Olhei para mim, como se pudesse me enxergar, e lembrei que a Igreja caminhava junto com a ciência. A aproximação desses universos moveu todo meu estudo de tendências para o curso da Poli, que foi baseado em moda e espiritualidade. Meu discurso virou “ética é a nova estética”, o que no fim também era uma grande resolução pessoal”. Na concepção de Isa, o mundo está passando por uma transformação profunda – e os produtos, assim como as pessoas por trás deles, em breve serão impregnados de novas concepções acerca da sustentabilidade, da força de produção e até mesmo da espiritualidade. Com isso, fortaleceu-se também uma crença no papel da profissão de pesquisadora de tendências: além da observar fatores econômicos, ela poderia projetar cenários melhores para a humanidade. “Meu idealismo me mata”, suspira.
Dois aspectos andaram próximos o tempo todo: pessoal e profissional, numa espécie de epifania ininterrupta causada pelo andar introspectivo na cidade. “Foi uma viagem de viés muito solitário. Era como descobrir os segredos do mundo e conectar isso com a moda. Meu desejo de estar lá era tão grande que cada passo no Velho Mundo era uma descoberta. Tudo que estava estudando eu visualizava nos prédios, nas igrejas. Era como decodificar minha consciência”.
Nem tudo foi fácil, contudo: “O europeu muitas vezes tem uma cabeça fechada, e sem a nossa alegria e a nossa abertura para aceitar outras culturas não é fácil propor coisas novas. Éramos 11 pessoas, cada uma de um país, discutindo um ponto comum: como vamos lidar com a matéria no momento em que o sistema capitalista mudar? Na capital do Renascentismo, discutíamos uma nova renascença. Naquele momento de primavera árabe e movimentos de Occupy ao redor do mundo, falávamos sobre a mudança de eras”. Embates às vezes difíceis eram travados, e pontos de vista tipicamente brasileiros soavam estranhos por lá.
A maior lição de todas serviu para a vida pessoal e para a profissional: é preciso sentir, é preciso estar atenta ao mundo. Para estudar tendências de moda, mas também para ser feliz onde se está. “Minha vida virou uma sincronicidade, um tempo de coincidências. Na Itália, eu estava pensando em mim e em como seria essa reciclagem que estava em curso na minha vida. E isso me deixava atenta. Caminhar sozinha pelas ruas me fez desvendar coisas que andava buscando pela vida inteira. A viagem também me provou que estava fazendo a coisa certa profissionalmente – vi meu caminho sendo traçado por pessoas que eu respeitava muito, como Li Edelkoort e Francesco Moratti”.
Ao fim do programa de estudos, o retorno a Porto Alegre não foi um sofrimento. Pelo contrário: “Mexi tanto com os meus valores que não queria mais conquistar o mundo. Estava tão claro que tinha encontrado o que procurava que minha maior vontade era voltar para casa e colocar tudo em prática”. O distanciamento, como costuma acontecer, fez Isadora valorizar ainda mais a cidade natal. “Vislumbrei que tinha muita gente fazendo coisas interessantes por aqui e que seria bom voltar. Mesmo longe, o atual movimento de urbanologia me fascinava” – ela cita o Porto Alegre CC e o TransvençãoLab. “Nunca fui de reclamar de Porto Alegre e estava com saudades. Sabia do valor daqui, nunca neguei que era uma cidade graciosa e que abriga as pessoas que eu amo. Mas de longe, quando tive certeza disso, minha vida ficou muito mais simples”.
* Para conhecer mais sobre o trabalho da Renata Callage e da Gabriela MO, que gentilmente nos cederam as imagens, vale dar uma olhada no Pink About It.







