Itália

Check-In: Isadora Bertolucci, de Florença para Porto Alegre.

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Foto: Gabriela MO para o blog Pink About It

Isadora Bertolucci sempre teve a Itália no imaginário. Publicitária, logo percebeu que a moda tem um poder de persuasão maior do que o das ferramentas tradicionais de comunicação: “Sentia necessidade de entender melhor este discurso que, assim com a publicidade, pode ser usado para o amor ou para a guerra”. Interessada em movimentos culturais e moda urbana, escolheu o curso Fashion Trends Forecast (ou Pesquisa de Tendências de Moda) na Polimoda, em Florença – terra de origens familiares e sensação de dolce vita. Ao entrar no avião em 2011, levava a intenção de fortalecer decisões profissionais. A volta para casa, ocorrida após um ano de viagem, revelou que a mudança foi muito além do que ela poderia prever.

“Minha viagem começou de verdade quando entrei na Basílica de Roma e vi um mapa astronômico e astrológico cravejado no chão. Os signos e as constelações estavam ali, desenhados no templo do catolicismo. Olhei para mim, como se pudesse me enxergar, e lembrei que a Igreja caminhava junto com a ciência. A aproximação desses universos moveu todo meu estudo de tendências para o curso da Poli, que foi baseado em moda e espiritualidade. Meu discurso virou “ética é a nova estética”, o que no fim também era uma grande resolução pessoal”. Na concepção de Isa, o mundo está passando por uma transformação profunda – e os produtos, assim como as pessoas por trás deles, em breve serão impregnados de novas concepções acerca da sustentabilidade, da força de produção e até mesmo da espiritualidade. Com isso, fortaleceu-se também uma crença no papel da profissão de pesquisadora de tendências: além da observar fatores econômicos, ela poderia projetar cenários melhores para a humanidade. “Meu idealismo me mata”, suspira.

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Foto: Isadora Bertolucci

Dois aspectos andaram próximos o tempo todo: pessoal e profissional, numa espécie de epifania ininterrupta causada pelo andar introspectivo na cidade. “Foi uma viagem de viés muito solitário. Era como descobrir os segredos do mundo e conectar isso com a moda. Meu desejo de estar lá era tão grande que cada passo no Velho Mundo era uma descoberta. Tudo que estava estudando eu visualizava nos prédios, nas igrejas. Era como decodificar minha consciência”.

Nem tudo foi fácil, contudo: “O europeu muitas vezes tem uma cabeça fechada, e sem a nossa alegria e a nossa abertura para aceitar outras culturas não é fácil propor coisas novas. Éramos 11 pessoas, cada uma de um país, discutindo um ponto comum: como vamos lidar com a matéria no momento em que o sistema capitalista mudar? Na capital do Renascentismo, discutíamos uma nova renascença. Naquele momento de primavera árabe e movimentos de Occupy ao redor do mundo, falávamos sobre a mudança de eras”. Embates às vezes difíceis eram travados, e pontos de vista tipicamente brasileiros soavam estranhos por lá.

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Foto: Gabriela MO para o blog Pink About It

A maior lição de todas serviu para a vida pessoal e para a profissional: é preciso sentir, é preciso estar atenta ao mundo. Para estudar tendências de moda, mas também para ser feliz onde se está. “Minha vida virou uma sincronicidade, um tempo de coincidências. Na Itália, eu estava pensando em mim e em como seria essa reciclagem que estava em curso na minha vida. E isso me deixava atenta. Caminhar sozinha pelas ruas me fez desvendar coisas que andava buscando pela vida inteira. A viagem também me provou que estava fazendo a coisa certa profissionalmente – vi meu caminho sendo traçado por pessoas que eu respeitava muito, como Li Edelkoort e Francesco Moratti”.

Ao fim do programa de estudos, o retorno a Porto Alegre não foi um sofrimento. Pelo contrário: “Mexi tanto com os meus valores que não queria mais conquistar o mundo. Estava tão claro que tinha encontrado o que procurava que minha maior vontade era voltar para casa e colocar tudo em prática”. O distanciamento, como costuma acontecer, fez Isadora valorizar ainda mais a cidade natal. “Vislumbrei que tinha muita gente fazendo coisas interessantes por aqui e que seria bom voltar. Mesmo longe, o atual movimento de urbanologia me fascinava” – ela cita o Porto Alegre CC e o TransvençãoLab. “Nunca fui de reclamar de Porto Alegre e estava com saudades. Sabia do valor daqui, nunca neguei que era uma cidade graciosa e que abriga as pessoas que eu amo. Mas de longe, quando tive certeza disso, minha vida ficou muito mais simples”.

* Para conhecer mais sobre o trabalho da Renata Callage e da Gabriela MO, que gentilmente nos cederam as imagens, vale dar uma olhada no Pink About It.

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Fah Maioli: Art&Fashion na Itália e possíveis caminhos para cool hunters.

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A socióloga Julia Presotto e a trend researcher Fah Maioli estão à frente do projeto Art&Fashion. Profissionais com ampla bagagem internacional e experiência na captação de tendências, Julia e Fah vão realizar cursos de Cool Hunting e Italian Fashion System e oferecer uma série de inputs criativos para profissionais em busca de uma linguagem original e inovadora. As turmas reduzidas, de no máximo 6 alunos, iniciam nos meses de setembro, outubro e novembro – e não à toa acontecem na Itália, berço da moda mundial. Fah Maioli conversou com nossa equipe diretamente da Itália e falou mais sobre os cursos e a carreira de cool hunter.

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Como surgiu a ideia do projeto Art&Fashion? Por que ele acontecerá na Itália?

O projeto é na verdade uma sequência, um “filhote” da Rota Fashion e da Rota do Design que já realizo aqui em Milão para profissionais do mundo todo. Do sucesso das Rotas e do delicioso encontro com a Julia Presotto surgiu a idéia de realizarmos algo juntas para o público brasileiro, que oferecesse um aprofundamento maior do mundo na moda em seu berço principal. Nos projetos anteriores, o foco era a realização de um cool hunting livre, oferecido a operadores do setor da moda e do design. Para este projeto, achamos por bem adicionar uma boa base acadêmica – com cursos teóricos de Cool Hunting Methods and Practices e Italian Fashion System – às visitas profissionais aos locais do mundo da moda (maisons, museus e negócio, por exemplo). Ou seja, no Art&Fashion as vivências do dia-dia são consequência natural das aulas teóricas.

A nossa escolha pela Itália, precisamente Milão, Firenze e Veneza, decorre de várias razões: pelas origens italianas de maisons como Gucci, Salvatore Ferragamo, Prada e Armani – que iremos abordar tecnicamente e depois conhecer ao vivo -, por ter sido na Itália que surgiram as primeiras parcerias contemporâneas entre artistas e estilistas, e por este país ser considerado berço da Arte pulsante: todos os movimentos artísticos têm aqui imponentes representações concretas. O charme e a disponibilidade de locais para as nossas atividades práticas (ateliês de estilistas, bureaus de estilo e modelagem e algumas confecções renomadas) também contaram bastante.

Acho importante falar também da minha parceria com a Julia: o clichê “nada acontece por acaso” toma a forma de mantra neste que é nosso primeiro trabalho juntas. A Julia é uma profissional extremamente “in gamba”, como dizem os italianos! Ela é perfeita e completa para este projeto, que agora faz parte de seu portfólio na Observatório, com exclusividade no Brasil. Penso que a delicadeza, o conhecimento, a simpatia, o ‘savoir-vivre’ de Julia são muito importantes para nossa parceria e para o sucesso desta relação. Eu sou a parte mais técnica, que transforma o conhecimento de ambas em cursos teóricos e os compartilha com os convidados aqui na Itália.

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De que forma um projeto como o Art&Fashion pode impactar a carreira de um profissional?

Nosso projeto irá auxiliar de forma muito pontual o profissional da moda: apresentando exemplos locais de quem já trilhou este caminho, bem como identificando metodologias que buscam a apropriação da arte de forma inteligente para criar produtos únicos e relevantes. Os bons estilistas não copiam os elementos artísticos: eles os estudam para encontrar novas ideias, para experimentar novas linguagens do corpo e para descobrir novas formas de comunicação com o mundo.

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Como tu vês a relação entre arte e moda? E como esse cruzamento entre as duas áreas ajuda o profissional da moda?

arte interessa à moda sobretudo porque vende ideias. Ao artista, a moda interessa porque é vista como chave para entrar no mundo da grande produção: podemos dizer que o artista busca na moda a massificação. Quando a moda interessa-se pela arte, ela começa a “experimentar com inteligência”, tanto nas formas como nos materiais. Essa contaminação está em toda a parte. Pensemos em Drácula de Coppola, personificado na bela face de Gary Oldman: seus vestidos eram assinados por Eiko Ishioka – não por acaso premiado com o Oscar em 1992. Ou na primeira e polêmica edição da Biennale di Firenze em 1996, dedicada a «Arte e Moda», onde começou todo este discurso atual. Foi esta manifestação artística que fortaleceu a discussão da relação entre inspiração artística e fashion design. Outros exemplos históricos são os modelos para a sartoria Emile Floghe de Vienna desenhados por Gustav Klimt, os vestidos para os figurinos do teatro de Depero, o protótipo para uma tuta unissex assinado por Thayath, Salvador Dalì para Elsa Schiaparelli, os vestidos cubistas de Robert Delaunay, os vestidos de Picasso para Ballets Russes e, mais recentemente, a saia de Martin Margiela queimada por Vanessa Beecroft para a sua African Renaissance.

Além destes, que apresentaremos em nosso projeto com detalhes, também veremos Issaye Miyake – estilista que é um símbolo da relação entre arte e moda – começando com suas jaquetas de papel (uma idéia ainda em uso, já que Gucci e Louis Vuitton vestiram suas vitrines principais em Milão com produtos nesta linha de inspiração). Rei Kawakubo e Yoshi Yamamoto seguem na mesma linha, assim como Alexander Mc Queen, John Galliano e Karl Lagerfeld. Miuccia Prada é expoente da união entre arte e moda: em 1999 convidou Mariko Mori para o seu Dream Temple na Fondazione Prada di Milano. E, para não alongarmos mais a nossa lista, encerro com Giorgio Armani, que creio ser o “dandy de massa” – um Dan Flavin buscando expressar-se com todas as possibilidades de luz através de tecidos, formas e elementos.

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Muito se fala em cool hunting atualmente, a ponto de haver uma banalização do termo. Concordas com essa afirmação? 

Concordo. Mas tudo são ciclos, não é mesmo? E o mercado regula-se organicamente, expelindo do sistema no tempo certo os falsos “profetas”. Nos anos 90 tivemos o boom do design, agora é a vez das trends! Qualquer profissional com um diploma de curso curta duração considera-se um cool hunter. O que não é errado, desde que fique bem delimitado que cool hunters são aquelas pessoas criativas que retiram informações da cidade onde vivem e trabalham por intermédio de imagens. Mas estas informações somente podem apresentar verdadeiro conteúdo quando são reportadas a um trend researcher (alguns bureaus de pesquisa na Europa o chamam de cultsearcher ou ainda trend analyst), profissional que deve possuir uma grande cultura sócio-antropológica, conhecer as teorias estéticas e a cultura do país onde está inserido, possuir uma imensa curiosidade intelectual, uma mentalidade aberta e sem preconceitos, saber dois ou três idiomas e ter conhecimento dos processos de idealização e produção das coleções de moda ou de design. Geralmente este tipo de profissional tem mais idade, viajou mais, tem mais experiência de mercado, tem um largo conhecimento acadêmico, conhece a História e suas correlações e sabe inserir estas informações em “clusters”, delimitando se são importantes ou irrelevantes, se são microtrends ou macrotrends. Cool hunters e trend researchers dependem um do outro e sozinhos não vão a lugar nenhum.

O que vejo com tristeza, muitas vezes, é que muitos jovens sem nenhum talento e background apresentam-se como cool hunters e “vendem tendências” às empresas após uma semana em Milão vendo a feira de Rho, por exemplo. E muitas delas, acreditando, investem quantias consideráveis em projetos que certamente não levarão a lugar nenhum. Isso acontece muito no mundo do design e felizmente não tenho visto isso acontecer ainda na moda brasileira. Espero que não aconteça!

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Como tu vês a evolução da profissão de cool hunter

As empresas sabem que não basta oferecer ao mercado aquilo que os clientes querem consumir hoje, dada a intensa evolução dos comportamentos de consumo e a imensa possibilidade de escolhas no mar de marcas nossas de cada dia. Neste panorama, os produtos têm um ciclo de vida muito curto, sendo percebidos como já superados no espaço máximo de 2 a 3 meses – na moda é assim. As empresas precisam então desenvolver e propor novos conceitos, que podem ser vendidos imediatamente. Ou seja, a profissão de cool hunter inicia vinculada – e assim será ainda por muito tempo, infelizmente – ao sistema capitalista dito selvagem: quer compreender com antecedência quais serão as linguagens da cultura e da sociedade para anteciparem tendências e gostos alinhados com esta informação, criando produtos no menor espaço de tempo possível. Trabalhamos com até 18 meses de antecipação.

Pessoal e profissionalmente, optei por não fomentar este mundo, pois creio que o consumismo é uma das grandes “falhas” comportamentais do nosso século. Por isso decidi focar minha pesquisa como trend researcher na área de Feiras Trendsetter, Comunicação Offline e Novos Materiais para a Moda+Design.

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A trend researcher Fah Maioli

Quais os caminhos para quem procura trabalhar na área?

Estudar muito, de forma on e offline. E evoluir uma ferramenta interna fundamental, que nos foi dada gratuitamente quando nascemos: a intuição. A internet é fantástica, mas é uma commodity, no sentido de que o que importa para ser um bom “explorador do Zeitgeist” é a sensibilidade para captar o momento certo, o ângulo exato de intromissão, a intimidade com a cidade, a simpatia com as pessoas desconhecidas, o sexto sentido. O contato direto, tête-à-tête, com os mestres desta área – como Li Edelkoort e Francesco Morace, apenas para citar alguns -, é muito importante. E o tempo, ah! o tempo é fundamental…

Como dica, aprenda a ouvir dentro de si os ritmos do mundo, não o barulho interno que vem e vai conforme o estado de espírito individual. Foi somente quando aprendi isso que percebi que eu realmente poderia colocar no meu cartão de visita o título de “trend researcher”, criando inclusive minha própria metodologia.

 

[mais informações sobre o Art&Fashion na fan page do projeto no Facebook ou pelo email julia@observatoriopesquisa.com

e vale lembrar que a organização e viabilização turística, reserva de passagens e hotéis é responsabilidade da Gaia Turismo]

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