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Artur Lopes: rigidez para movimentar a criatividade.

Artur Lopes | Foto: Eduardo Rosa (Baiano)

Artur Lopes | Foto: Eduardo Rosa

Quando o cabeleireiro britânico Vidal Sassoon criou cortes tão icônicos quanto os de Mary Quant, Twiggy e Mia Farrow nos anos 60, foi além de pensar na beleza dessas mulheres pela forma dos cabelos: libertou-as dos laquês e secadores, e assim contribuiu para uma nova feminilidade. Hoje cabelos curtos e naturais são algo prosaico para quem, passadas tantas décadas, arruma-se como bem entender. Mas significaram, naquela época, um movimento de afirmação de mulheres mais livres e independentes. A beleza, como não é raro acontecer, fez ali uma mudança de fora para dentro.

Cubo | Foto: Eduardo x

Cubo | Foto: Eduardo Rosa

Pois é esse argumento que move outro cabeleireiro, já dos tempos atuais. Artur Lopes capitaneia com Jonathas Diniz o projeto Cubo – um coletivo criativo de experimentação e educação na área de cabelos e moda, localizado em Porto Alegre. Fã assumido de Sassoon, Lopes compreende a beleza como um elemento de design, motivo por que aplica a seu trabalho autoral princípios rígidos como distribuição, forma, ângulo, proporção e densidade de luz. Os termos, que podem soar precisos demais para uma área aparentemente fluida como a beleza, são segundo o hair stylist o solo sobre o qual a criatividade se movimenta.

“Não começo um processo criativo de forma solta. É o contrário: saio de uma base rígida para construir formas e texturas novas. Qualquer tentativa artística parte dessa colocação da liberdade sobre uma estrutura funcional.”

Trabalho realizado pelo Cubo | Foto: Lucas Cunha

Trabalho realizado pelo Cubo | Foto: Lucas Cunha

Lopes quer que seus clientes saibam que tudo que carregam no cabelo tem uma função. De forma muito consciente, usa a beleza para compartilhar uma cultura com as pessoas. Referências que ele busca no cinema, na literatura e na arte e que integram uma relação de trabalho cuja matéria prima são os fios. O apreço pela forma, no fim das contas, revela muito do que este gaúcho entende sobre a beleza: uma via de mão dupla, em que a aparência ajuda a modificar o interior de uma pessoa. “Alguém que está embaralhado internamente pode se reorganizar a partir de mudanças no visual, o que fica claro quando se passa por momentos de transformação na vida.” Ao levantar-se da cadeira do cabeleireiro, cada pessoa leva uma magia e um cuidado com si mesmo – tudo que depois emana, transformando o que está à volta.

Para saber mais: cubocubocubo.tumblr.com

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Saudade pra quem tem: a estreia da estilista Natasha Heyer

Coleção de estreia de Natasha Heyer: Saudade pra quem tem | Foto: Ricardo Lage

A coleção de estreia de Natasha Heyer | Foto: Ricardo Lage

Foi da distância entre dois mares – o Atlântico, na praia do Cassino (na região mais meridional do Rio Grande do Sul), e o Mediterrâneo, que banha as areias espanholas – que surgiu a primeira coleção da estilista gaúcha Natasha Heyer. Radicada em Barcelona desde 2007, encontrou na saudade de sua avó materna um tema para a coleção de encerramento da graduação na Escuela Superior de Diseño y Moda Felicidad Duce, na capital da Cataluña. Ao abrir o baú das lembranças, Natasha colocou sentimento para o lado de fora. Camadas de memórias vividas ou inventadas ganharam forma e textura: viraram roupas.

Explicar uma expressão tão impregnada de brasilidade quanto “saudade” em terras estrangeiras não foi difícil para Natasha. O que parecia um empecilho – os 26 anos que ela considerava poucos para falar de nostalgia – virou um ponto de partida. “Me achava muito nova para falar de saudade com a mesma consistência que uma pessoa mais velha. Por isso, a ideia original foi trabalhar as memórias da minha avó – o que ela sentiria se estivesse viva, do que teria saudade. A dificuldade em pesquisar os documentos da família em um outro país, no entanto, fez com que eu me voltasse para minhas próprias lembranças. Quando me dei conta, falava da saudade que eu sentia dela”, explica a estilista.

A estilista Natasha Heyer | Foto: Ricardo Lage

A estilista Natasha Heyer | Foto: Ricardo Lage

Alexandra Mincev Heyer se colocou na memória da neta como uma mulher de muita fé: católica, acreditava também no candomblé e cumpria uma série de rituais que na infância Natasha costumava espiar atrás da porta. “Em todo dia 2 de fevereiro íamos para a beira da praia e fazíamos oferendas a Iemanjá. Ao iniciar as pesquisas para a coleção, encontrei no Nordeste brasileiro as referências que buscava.” Entre imagens de baianas devotas da Rainha do Mar, Natasha se viu tão curiosa quanto a criança de outros tempos. Juntou a isso as saudades emprestadas de outras famílias, reunidas no Mercado de los Encantes (feira de antiguidades de Barcelona), e começou a traduzir lembranças em texturas e volumes.

“Tudo que foi feito nesta coleção teve minha mão em cima, da modelagem ao acabamento (as roupas receberam aplicações de pérolas, pequenas figas compradas no Mercado Público de Porto Alegre e bordados de ponto cruz). Os tecidos foram escolhidos para dar forma à estética das baianas – representadas em suaves camadas de seda – e também para suportar as aplicações de bordados.” O guipur, material semelhante à renda, deveria ser o protagonista, e assim foi feito. Os tons são claros, apenas quebrados pela estampa floral desenvolvidos pela estilista.

Saudade pra quem tem | Foto: Ricardo Lage

Saudade pra quem tem | Foto: Ricardo Lage

“Ao imaginar a coleção já fica clara uma estética. No caso de Saudade é pra quem tem havia o desejo de um resultado natural, e os tecidos acompanharam essa intenção”, diz Natasha. O aspecto tropical das roupas foi ressaltado pelos professores espanhóis, que incentivaram o mergulho na cultura brasileira. Mas ela afirma que acima de tudo foi um trabalho pessoal. “Exigiu lembrar de coisas que me emocionam e me deixam sensível.” Talvez por isso o resultado a que ela chegou não tenha latitude definida: transita entre países sem a vontade de levantar fronteiras.

No dia 4 de julho, Natasha apresenta a coleção para o primeiro júri espanhol. Mais do que técnica, o ciclo de um ano de Saudade é pra quem tem a fez consolidar um modo de trabalho: “Essa maneira de produzir artesanalmente, que lembra um alfaiate, é muito importante pra mim. Entendi que é meu processo e que a partir dele coloco histórias em cima da peça. Cada roupa finalizada tem muito pensamento meu”. Para Natasha, desenvolver a coleção fora de um target comercial foi uma experiência única: “Pude fazer o que eu queria, independentemente de um possível comprador. Foi um momento de 100% de liberdade criativa que me deu segurança nas minhas próprias decisões”, avalia.

Entre costuras, Natasha admite que a vida da avó segue coberta de mistérios – a distância não lhe permitiu esclarecer tudo que gostaria. Passado um tempo, no entanto, ela conclui que isso não é ruim: “Deixou que eu criasse minhas próprias histórias sobre ela”. Saudade passou a ser algo positivo, que existe porque houve alguém por perto, porque se viveu algo. Da mesma forma como cuidou da vida, a estilista finalizou as roupas. Com atenção aos detalhes, tudo foi minuciosamente acabado não só por fora, mas especialmente por dentro. Ao arrematar cada peça, Natasha não teve dúvidas. Recorreu ao ponto cruz e escreveu a palavra que a transportou para outros tempos: cada etiqueta é, literalmente, uma saudade.

A peça-xodó de Natasha Heyer, com aplicações feitas à mão pela própria estilista | Foto: Ricardo Lage

A peça-xodó de Natasha Heyer, com aplicações feitas à mão pela própria estilista | Foto: Ricardo Lage

_créditos das fotos:

Fotografia: Ricardo Lage

Beleza: Bianca Duarte

Modelo: Alanna Pingray (Premier Models Management)

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Pares Ímpares: Caio Amon e Edu Rabin

Caio Amon e Edu Rabin | Foto: Ricardo Hegenbart

Caio Amon e Edu Rabin | Foto: Ricardo Hegenbart

Uma amizade regida pela urgência e pela vontade de fazer por si. Nessas expressões transparece o tom da dupla formada pelo produtor musical Caio Amon e o diretor de fotografia Edu Rabin. Depois de inúmeras colaborações, elegeram o documentário como linguagem comum: nos vídeo portraits, os dois encontraram um espaço para criar em dupla, da ideia original à finalização. “Sempre soubemos que trabalharíamos juntos e esperamos pelo momento em que estaríamos prontos”, sintetiza Amon.

No Colégio Israelita, em Porto Alegre, os amigos colocaram em prática as primeiras parcerias. No Projeto Lumière, exibiam sessões de títulos como Laranja Mecânica, Um Estranho no Ninho e Easy Rider. “Eram filmes da contracultura que nossos pais tinham visto e que estávamos descobrindo”, conta Rabin. Quando perceberam, haviam criado um arsenal de referências culturais comuns que faz com que hoje a comunicação entre eles seja tão fluida que não precisa de fala.

Caio formou-se em filosofia e depois foi para Amsterdã estudar composição musical. Rabin, após a faculdade de cinema, seguiu para Barcelona e Madri, onde teve experiências pioneiras com a filmagem digital. No retorno ao Brasil, decidiram criar a primeira peça planejada pelos dois desde a origem: o vídeo Madame Antonieta, no qual retrataram o micro-universo colorido do confeiteiro gaúcho Cássio Cevallos. No dia a dia de trabalho, a palavra final é sempre de quem tem domínio da área, mesmo que um entenda muito sobre o universo do outro. Assim demonstram confiança e respeito, algo que fica visível também quando os dois ministram suas aulas na escola de fotografia Fluxo, em Porto Alegre.

Edu Rabin e Caio Amon | Foto: Ricardo Hegenbart

Edu Rabin e Caio Amon | Foto: Ricardo Hegenbart

um pouco de Apolo e Dionísio

A “capacidade brutal de organização” é uma das características de Amon mais importantes para Rabin. Para Amon, que reconhece uma tendência ao controle e ao perfeccionismo, é exatamente a espontaneidade de Rabin uma de suas maiores qualidades: “Nas entrevistas para os documentários, Edu pergunta coisas que levam o entrevistado a lugares insuspeitos que eu não teria planejado”. Resumem que Amon é apolíneo, Rabin dionisíaco – como no livro “Narciso e Goldmundo”, de Herman Hesse. São, assim como aqueles personagens, diferentes e complementares. E quando levam essa união para o trabalho, fazem dele  mera extensão da vida.

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Pares Ímpares: As Patrícias // RM Mag

Patrícia Pontalti e Patrícia Parenza | Foto: Gabriela MO

Patrícia Pontalti e Patrícia Parenza | Foto: Gabriela MO

As jornalistas Patrícia Pontalti e Patrícia Parenza viraram um plural por força das circunstâncias: há muitos anos começaram a frequentar juntas os desfiles e eventos da então incipiente cena fashion brasileira. “Somos altas e andávamos sempre juntas e superproduzidas. Viramos as Patrícias do Sul”, diverte-se Pontalti. Sob o selo As Patrícias, consagraram a parceria que as transformou em sinônimo de informação de moda.

Patrícia Pontalti sonhava em ser jornalista política e por isso foi para a faculdade em Caxias do Sul. De repórter policial, primeira vaga que ocupou no jornal Pioneiro, passou por diversas áreas até assumir o caderno de variedades da publicação. Este foi o pulo para depois ser contratada como editora de moda do jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Foram 11 anos na RBS, que Pontalti considera sua grande escola: “Aprendi a fazer hard news e me descobri uma repórter por essência. Mesmo na moda, minha preocupação é transmitir a informação com precisão”.

A trajetória de Patrícia Parenza já começou fashion. Modelo desde os 14 anos, viajou muito por causa da profissão e, quando voltou a Caxias, foi convidada a apresentar o Jornal do Almoço local. Foi o primeiro contato com a TV e a deixa para ingressar na faculdade de jornalismo, onde conheceu Pontalti. É a amiga que revela a Parenza daquela época:  “Ela era um mito na cidade. Não apenas por trabalhar na TV, mas porque era uma espécie de David Bowie de saias caxiense”. Ainda na serra gaúcha, Parenza começou a trabalhar na produção de filmes com René Goya, da Estação Elétrica. Quando a distância dificultou, veio para Porto Alegre e acabou virando sócia da empresa, cargo que ocupa até hoje.

O encontro definitivo

Instalada na capital, Parenza começou a apresentar um programa da TV Com. Pontalti também estava no Grupo RBS, por isso o convívio ficou ainda mais fácil. Elas começaram a ensaiar as primeiras colaborações de forma não oficial e, em 2004, fundaram a própria empresa para trabalhar com produção de moda, jornalismo e consultoria. Já no ano seguinte surgiu a ideia do site aspatricias.com.br

Em 2005 existiam apenas alguns endereços virtuais de moda, como o de Erika Palomino e Gloria Kalil. “Passamos uns dois anos bem duros. O site era um exercício de jornalismo que queríamos manter, e tínhamos muitos planos ligados diretamente à internet. Porém, quando propúnhamos projetos ligados ao site as pessoas achavam graça, não entendiam. Foi um banho de água gelada. Naquele momento, decidimos deixar o site como um veículo nosso e nos focamos na produção e na consultoria”, diz Parenza.

Com 20 anos de experiência em moda, as Patis esbanjam pesquisa e conhecimento acumulado. Algo que nunca serviu para que elas tivessem uma postura elitista em relação à área. Pelo contrário: “Interpretamos o olhar para o cliente, mas nunca nos corrompemos. Se assinamos algo, é porque acreditamos na ideia e achamos que a moda pode chegar a qualquer público”, diz Pontalti, cuja fala é completada por Parenza: “A gente canta, dança e sapateia. Achamos encantador dar consultoria de moda para pessoas que não recebem normalmente essa informação”.

Patrícia Parenza e Patrícia Pontalti | Foto: Divulgação

Patrícia Parenza e Patrícia Pontalti | Foto: Divulgação

Uma Patrícia de kaftan, outra de calça jeans

As Patis não se consideram opostas. Têm os mesmos valores e ideias sobre a vida, mas desejos diferentes – e aí está a graça. Enquanto Pontalti gosta de texto, Parenza é uma apreciadora da imagem. Garantem que a criatividade de Pontalti é organizada por Parenza, que coloca as ideias em um fluxo e torna tudo concretizável. Fora do trabalho, defendem a individualidade e o respeito. Se Pontalti é mais noturna e Parenza mais família, isso faz com que as experiências pessoais sejam diferentes e que os momentos de distância tragam referências novas para a dupla.

E como se trata de Patrícias da moda, também aí adaptam o que veem a estilos diferentes. “Parenza sempre teve um gosto mais exótico, audaz, à la Diana Vreeland (ícone da moda, foi editora das principais publicações internacionais). É uma mulher de kaftans e longos. Eu já sou mais Carine Roitfeld (ex-editora da Vogue francesa) e gosto de um bom terninho ou das minhas peças favoritas: jeans e camiseta”, conta Pontalti.

Entre tantas histórias de amigas, divertem-se ao lembrar de uma de suas preferidas. Apaixonada por vestidos, Parenza é uma grande fã do estilista mineiro Ronaldo Fraga. Uma vez, após um desfile, Pontalti se apaixonou por um modelo peça única e comentou com Fraga, que gentilmente deu-lhe a peça de presente. Parenza ficou arrasada, afinal era ela a verdadeira fã daquelas roupas. Passou cinco anos pedindo o vestido e usando todas as estratégias possíveis. Encheu Pontalti de presentes e mimos, até vencê-la no cansaço. E ganhou o vestido, que elas consideram uma verdadeira obra de arte. E que inda serve como prova da amizade que torna impossível para uma Patrícia pensar a moda – e a vida – longe da outra.

aspatricias.com.br

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Pares Ímpares: Amanda Py e Petula Silveira // RM Mag

Amanda Py e Petula Silveira, da PP Acessórios | Foto: Gabriela MO

Amanda Py e Petula Silveira, da PP Acessórios | Foto: Gabriela MO

Duas pessoas mostram afinidade tão logo começam a falar. Enquanto contam sobre as próprias vidas que se entrelaçaram, entregam respostas e antecipam perguntas. Não é difícil entrevistar duplas que se entendem pelo olhar tanto quanto pela fala. As palavras se complementam, tal e qual acontece no dia a dia.

Talvez antes de se encontrarem as metades de uma dupla não fossem exatamente o que são hoje. Passaram a existir de forma plena no instante no qual se identificaram – em um primeiro momento como amigas, e logo como parceiras de trabalho. Impossível pensar em uma sem associá-la à outra, e isso não é ruim. São casos de sorte, quando uma parte de si mora em outra pessoa. 

Amanda Py e Petula Silveira, da PP Acessórios | Foto: Gabriela MO

Amanda Py e Petula Silveira, da PP Acessórios | Foto: Gabriela MO

A marca PP Acessórios foi criada por Amanda Py e Petula Silveira. Amigas desde o colégio, tornaram-se uma dupla definitiva quando encararam a meta conjunta de fazer bom uso do material excedente da indústria calçadista. Queriam transformar descartes de couro em peças de moda: bolsas, carteiras e pulseiras que hoje são costuradas com linhas de encanto.

Petula trabalhava com marcas de sapatos. Por isso, lidava diariamente com as sobras que, sem serventia e tratamento, prejudicavam o meio ambiente. Chamou Amanda, designer de produtos. Depois dos primeiros resultados com o couro, a dupla amarrou os caminhos que andavam distantes e priorizou um projeto autoral e de essência criativa. Para dar nome à empresa, uniram P de Py e P de Petula. Mas foi a soma das boas intenções que fez a base da PP.

O segredo da convivência – não apenas no trabalho, pois há muito de vida compartilhada entre elas – é a admiração mútua e a confiança. “Gosto de brilho e de cores, enquanto a Amanda gosta de cinza e de tons claros. Mas ela adora quando crio uma peça dourada, ainda que não a use, assim como eu acho chiquérrimas todas as criações dela”, conta Petula. A personalidade da PP acontece no momento em que uma acrescenta às criações da outra algum toque pessoal – o lugar do encontro.

Amanda Py e Petula Silveira, da PP Acessórios | Foto: Gabriela MO

Amanda Py e Petula Silveira, da PP Acessórios | Foto: Gabriela MO

em vez de faíscas, harmonia

A tranquilidade de Amanda apazigua Petula, que por sua vez enche Amanda de energia. O abraço depois das brigas nunca tarda a acontecer, e a regra é resolver qualquer desentendimento no próprio ambiente de trabalho – o escritório-ateliê-showroom da PP, em Porto Alegre. Ao falarem uma sobre a outra, não querem segurar o sorriso: “Amanda é o lado doce da PP”, diz Petula. Já Petula, aos olhos da amiga-sócia, é “explosão, festa e casa cheia”. Fazem lembrar de uma música de Jorge Drexler, segundo a qual não há nada pior para um certo coração do que casa vazia. Ainda bem que, para a alegria delas, a PP está sempre repleta.

ppacessorios.com.br

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Casa dos Desejos: arte e arquitetura de Luciano Teston // RM Mag

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Apartamento do arquiteto Luciano Teston | Foto: Diego Larré

“Depois da roupa, a casa é o que está mais próximo do nosso corpo. É para onde voltamos todos os dias, o centro do nosso universo particular.” Desta relação de intimidade é feito o apartamento onde vive o arquiteto e artista plástico Luciano Teston em Porto Alegre: cada objeto ou móvel que habita a construção da década de 70 é visto com extremo cuidado – mesmo olhar que migra para o desenho, faceta revelada há poucos meses na mostra de Luciano sob curadoria de Amélia Brandelli.

Arquitetura e arte andam juntas na vida do idealizador do Studio Teston, especializado em projetos residenciais e comerciais. Transitando entre a casa-ateliê e o escritório, Luciano quer mais do que ser alguém que divide seu tempo entre o trabalho e o lazer. Quer ser múltiplo, assim como os tantos interesses que aparecem nos livros deixados pelas prateleiras e sobre as mesas da casa. “Minha paixão pelos livros é antiga. Uso este acervo para me abastecer e compor minhas referências. Mas dou igual importância às conexões e desdobramentos que surgem das conversas com as pessoas.”

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Apartamento do arquiteto Luciano Teston | Foto: Diego Larré

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Apartamento do arquiteto Luciano Teston | Foto: Diego Larré

A relação com os outros, aliás, distingue arquitetura e arte para Teston: no fazer artístico, o processo é totalmente individual – por ser solitário, chega a ser catártico. Já nos processos de arquitetura o cliente é sempre levado em consideração. “Preciso ser um intérprete do que a pessoa quer e respeitar este desejo. Muitas vezes a solução de espaço é evidente para mim e de imediato imagino o que ficaria bom para um ambiente. Mas se eu der a resposta sem conversar talvez o futuro morador da casa não se identifique com a ideia. O cliente precisa integrar o raciocínio que leva ao projeto final.”

Na arquitetura de interiores importa revelar a pessoa por trás das paredes e dos móveis – assim como as roupas falam também de quem as veste. “A questão do consumo nos empurra para sermos todos iguais por curtos prazos de tempo. Com a arquitetura busco o contrário. Assumir quem se é se torna uma condição do projeto.” O paralelo com a moda acontece também quando ele fala sobre o planejamento de um espaço: tal e qual uma peça-chave do guarda-roupas, uma peça de mobiliário pode desencadear toda uma proposta arquitetônica.

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Apartamento do arquiteto Luciano Teston | Foto: Diego Larré

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Apartamento do arquiteto Luciano Teston | Foto: Diego Larré

Avesso ao desperdício, o arquiteto diz que móveis clássicos não se submetem à defasagem imediata. Algo que fica claro nas escolhas que ele fez para o próprio lar: grande parte da mobília foi desenhada no século XX, entre as décadas de 20 e 70 – “período muito profícuo para o design”, ressalta. A composição, no entanto, não fica presa ao passado. “A casa nunca é estanque, está sempre em movimento. Quando há uma base, é possível inserir itens novos e realizar trocas sem que seja necessário jogar tudo fora.

A beleza, para o arquiteto-artista, está em trabalhar com coisas simples que não sejam óbvias. O núcleo do projeto para uma casa está nas linhas, nos planos horizontais e verticais que criam uma geometria própria: ”Apesar de toda a minha estética da acumulação, sempre deixo espaços.” Respiros que também caracterizam os desenhos de arte feitos por Teston, os quais seguem a mesma lógica: uma concentração de traços sempre é coordenada com o vazio, com zonas brancas. A percepção do espaço é importante para valorizar o que é essencial: “Quando faço um desenho me referindo a um objeto qualquer ele assume um outro significado e liberta a poesia que deriva do traço.”

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Desenho de Luciano Teston

O desenho de Teston fala sobre o próprio desenho: “não quero inventar um discurso. É a linha e a forma como o trabalho se configura que importam.” Ao desenhar, Luciano sente que existe uma ligação direta entre o cérebro e a mão: “o grafite é quase uma extensão do corpo”. Mesmo gesto praticado por ele na infância, quando pintava de fora a fora com giz as calçadas que rodeavam a casa da família. O imaginário é hoje repleto de lembranças de outros tempos, de referências cinematográficas e de experiências de viagem. A primeira feita por ele, lembra, aconteceu pelos livros: “Tinha 8 anos quando meu tio me falou que Veneza era uma cidade preenchida por água. Não acreditei, pensei se tratar de uma grande mentira. A curiosidade me levou a pesquisar em uma enciclopédia e a comprovar que era tudo verdade. Veneza criou meu primeiro interesse pela arquitetura e pela arte”.

O arquiteto-artista que não teme ser múltiplo sabe que, dentro de casa, pode ser o que quiser. “No momento em que a porta se fecha há sensação de ninho e de proteção. É possível se despir dos julgamentos, rir ou chorar.” Por ter consciência disso, Teston tem muito respeito pelos ambientes onde trabalha: em síntese, é ali que a individualidade se fortalece. Dentro de casa, assim como dentro da própria roupa ou dentro da própria pele, há vida concentrada. Não se deve, portanto, ser impecável: é preciso colocar os pés sobre a mesa, comer no sofá e jamais ter medo da desordem.

// Texto de Raquel Chamis para a edição #43 da RM Mag.

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Alma Encantadora das Ruas – O Estilo de Felipe Veloso na Ponte Aérea Rio-Nova York // RM MAG

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Rio de Janeiro | Foto: Carine Wallauer

Se é verdade que “a cidade faz o homem” – como dizia o cronista João do Rio –, o stylist Felipe Veloso carrega no próprio estilo os reflexos de muitos lugares. Carioca com passaporte carimbado em diversas semanas de moda internacionais, sabe que seu universo hoje é globalizado: “Agora as pessoas recebem influências dos espíritos de diferentes partes do mundo e acabam formando um novo coletivo em que as aspirações individuais são mantidas.” E entre muitos centros urbanos que o inspiram constantemente, duas metrópoles falam mais do que as outras sobre quem é Felipe Veloso: o Rio de Janeiro de suas raízes e a Nova York para onde ruma sempre que pode.

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Felipe Veloso | Foto: Arquivo Pessoal

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Felipe Veloso | Foto: Arquivo Pessoal

Mais de um século depois do lançamento de A Alma Encantadora das Ruas, livro em que o jornalista João do Rio descrevia os cariocas, Felipe Veloso também decodifica tipos humanos. Tal como João, que no início do século XX desenvolveu a crônica social moderna, o stylist conta histórias de seu tempo. Não é cronista no sentida das palavras, mas mostra seu olhar nas roupas que seleciona e nos estilos que cria (entre os nomes que passaram por sua orientação cuidadosa estão Regina Casé e Caetano Veloso, além dos desfiles de Isabela Capeto, Reserva e Auslander). Ao falar da própria profissão, não tem rodeios: “Um stylist de moda é, num exemplo simples, aquela pessoa que ajuda o amigo a se vestir quando ele tem uma festa e não sabe o que usar”.

Veloso é um apreciador da arte de flanar. Circula entre Rio e NY em busca de cultura, diversão e, principalmente, dos muitos amigos que se espalham lá e cá. Para o carioca de coração meio nova-iorquino, há um denominador comum entre a Big Apple e a Cidade Maravilhosa: são dois lugares que recebem bem as pessoas. “Dizem que se eu morasse em Nova York meu encanto seria diferente, porque o tratamento dado aos visitantes é sempre melhor. Talvez sim. Mas é exatamente essa maneira de acolher quem vem de fora que eu reconheço como uma qualidade também do Rio de Janeiro.” Tom amistoso que ele usa ao dividir as dicas das duas cidades pelas quais seu amor urbano se divide – assim mesmo, em constante ponte aérea. Os roteiros propostos, no fim das contas, são uma espécie de retrato de Felipe Veloso.

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Felipe Veloso | Foto: Arquivo Pessoal

Felipe do Rio:

-Onde encontrar o espírito do Rio: “No Mirante do Leme, um lugar que poucos cariocas frequentam. De lá é possível ter uma visão plástica de Copacabana. De certa forma, é a Copa dos anos 70, o Rio que não é enfarofado. É um lugar de onde se vê o Rio de Janeiro ao contrário.”

-Para rechear o guarda-roupa: “Não compro muito no Rio porque quando as peças chegam aqui eu já estou saturado de vê-las nos desfiles. Mas gosto muito da Foxton, uma loja em Ipanema que tem de tudo. Quando meus amigos de outros países vêm me visitar sempre os levo na Osklen e na Reserva, endereços clássicos daqui.”

-Motivo para se enraizar: “O Rio, por ser balneário, tem características que eu aprecio muito. É uma cidade para passear: curtir o dia, malhar na rua. A mistura de intenções é única por aqui e independente das condições econômicas todo mundo vai à praia.”

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Felipe Veloso | Foto: Arquivo Pessoal

Felipe de Nova York:

-Onde encontrar o espírito de NY: “Na festa de domingo que rola na Green House. A Nova York dos anos 90, da época do movimento clubber, tinha exatamente essa cara. É ótimo porque começa cedo e dá para aproveitar muito e ainda estar bem para o dia seguinte. O Standard Hotel tem uma vista linda da cidade. E adoro pegar um taxi para dar um refresco: ir a Williamsburg e Brooklyn. A dificuldade de NY é que vai se criando uma rotina de lugares imperdíveis – e aí fica impossível passar pouco tempo por lá.”

-Para rechear a mala: “Em NY compro muito de tudo. Gosto de ir na Opening Ceremony e de garimpar nas lojinhas de Low East Side. Aos sábados, caminho pelas galerias do Soho e entro na Comme des Garçons – é legal porque assim equilibro compras e programação cultural.”

-Motivo para voltar sempre: “O dinamismo da cidade e a mistura de gente. Mas principalmente a presença dos meus melhores amigos.”

Para seguir os roteiros:
RJ: Mirante do Leme (Praça Almirante Júlio de Noronha, s/nº – Leme – cep.ensino.eb.br), Foxton (Rua Garcia D’Avila, 147 – Ipanema), Osklen (Rua Maria Quitéria, 85 – Ipanema), Reserva (Rua Maria Quitéria 77 – Ipanema)

NY: Green House (150 Varick Street – Soho), Standard Hotel (848 Washington at 13th Street), Open Ceremony (35 Howard Street), Comme des Garçons (520 W. 22nd St.)

// Texto de Raquel Chamis para a edição #43 da RM Mag.

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