“Banda é casamento.” Assim Daniel Tessler, vocalista e guitarrista da Tess, define o trabalho com a música. É de amor, afinal, sua relação com o rock. Doa-se de coração sempre que compõe, ensaia e escreve – e não apenas sobre romances. Fala também sobre os encontros com as pessoas, a melancolia das cenas cotidianas, a família. A matéria-prima de suas canções, enfim, é o deslumbramento que tem em relação à vida, tanto no seu lado ruim quanto no bom. Para o músico de 28 anos que nunca deixou de escrever cartas de amor, não há medo em falar dos próprios sentimentos: canaliza para suas letras tudo que transborda.
Prestes a lançar o primeiro CD com a banda nova, lembra de quando começou a tocar teclado a pedido da mãe, admiradora de música clássica. “Eu era obrigado, não gostava”. Dois anos depois, um dos momentos mais marcantes da infância seria embalado por um ritmo bem diferente: a rádio AM estava ligada quando Daniel ouviu Twist and Shout pela primeira vez. Ele jamais esqueceu: “Na hora eu me levantei e perguntei ao meu pai o que era aquilo. Ele me disse: ‘São os Beatles. Uma hora tu vais conhecê-los’.” O tom era premonitório. Daniel passou a estudar tudo que envolvesse os Fab Four e John Lennon virou seu ídolo supremo – posto que ocupa até hoje. Nascia um beatlemaníaco que assumiu como sua a estética sessentista do movimento Mod e que nunca deixou de acreditar no poder do pop.
Tocou desde muito novo – Balfúrdios, Supersônica e Os Improváveis foram os nomes de alguns grupos – e integrou Os Efervescentes por 7 anos. “Neste período gravamos disco, fizemos turnê em São Paulo, tocamos fora do país. Existia muita unidade: nos vestíamos e falávamos do mesmo jeito.” O casamento da banda, porém, terminou – e neste intervalo surgiu o projeto da Tess. “Senti o baque da separação. Mas tinha conseguido um investidor e dois produtores para gravar um CD, então precisava preparar um disco.” Foi o que fez, apesar de naquele momento ainda não ter o quarteto completo – Saymond Roos, Rodrigo Fischmann e João Augusto Lopes (Jojo) chegaram ao longo do processo. “Eu não sou um músico solo. Apenas tive o azar de estar sem banda quando surgiu a oportunidade do CD”, explica Daniel, que admite não ter apreço pela solidão.
A necessidade de trabalhar sozinho, porém, o ensinou a olhar para dentro – há sentimentos que são difíceis de dividir. O principal deles é o embate diário pela carreira. Nestas horas, garante ele, a força é individual. “Em Porto Alegre um músico começa sabendo que não vai dar certo. Diferente do que costumam dizer, aqui não é a capital do rock.” A primeira frustração foi saber que a profissão escolhida não era apoiada por pessoas muito próximas. “Se eu ganhasse um prêmio hoje eu só agradeceria a mim mesmo, por jamais ter deixado de fazer música.” Daniel diz que um artista escuta diariamente que seu objetivo de vida pode ser apenas de um sonho. “Mas a música é uma profissão como qualquer outra e deveria ser encarada assim. Acho que se trata de nunca baixar a guarda.” Para isso é preciso ter disciplina: “Tenho que estudar muito. Acordo cedo todos os dias para escutar discos, escrever canções, ler livros de teoria e de partitura. São 40 tentativas até que se alcance a composição ideal. Ensaio exaustivamente”.
O lançamento do primeiro CD da Tess, previsto para março, é muito aguardado por Daniel. Ao observar a divulgacão do clipe colaborativo da faixa Sempre Junto e comemorar a confirmação da banda como uma das convidadas do Meca Festival, espera iniciar um novo capítulo da vida e da carreira. Reconhece que é dono de um olhar romântico que causa dor e delícia na mesma medida. Mas é o incansável encanto pela música que guia todos os seus passos. “A natureza é capaz de demonstrar nos minutos que antecedem um temporal ou no por-do-sol a força da vida – e aí mora uma melancolia muito bonita. No meu caso, cada choro ou letra revela o que sinto: é minha forma de provar que estou vivo.” É de amor que ele fala.








